Ensaios Radioativos, de Márcio-André

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Poeta e editor da Revista Confraria, Márcio-André fez uma viagem no mínimo estranha em 2007. Aproveitando uma ida à Europa, cismou em visitar Pripyat, na Ucrânia, cidade atingida pelo desastre nuclear de Chernobyl ocorrido em 1986. Em meio aos prédios e casas abandonadas e exposto à intensa radiação, Márcio-André realizou a primeira Conferência poético-radioativa de Pripyat. A sua performance, com leituras de poemas próprios e de outros nomes renomados, lhe rendeu o título de poeta radioativo. Ensaios Radioativos, então, é um livro sobre ele, aquele que trouxe ao país um pouquinho da energia nuclear da Ucrânia.

O livro é uma reunião de ensaios, artigos e entrevistas com o poeta, publicado pela editora Confraria do Vento. Márcio-André divide o livro em quatro partes, separando os textos por tema e estilo. Na primeira, intitulada “A permanência das coisas”, o autor apresenta diversas reflexões sobre a poesia e como ela é vista hoje. Ele critica o deslumbramento dos autores, alegando que a poesia deve ser adorada por si só, e não ser uma ferramenta para adoração dos poetas. Uma crítica pertinente para esse tempo, onde vemos títulos e mais títulos brotarem das prateleiras exaltando escritores.

Não gosto de poesia. Esse foi um gênero que nunca me agradou, simplesmente porque não consigo entendê-lo. Gosto do objetivo, do direto, e tenho muita dificuldade em entender o que uma poesia quer passar. Por isso, essa primeira parte em relação à ela propriamente dita não me agradou tudo, salvo algumas reflexões que cabem também em outros gêneros literários. Essa é a parte mais densa do livro, com inúmeras referências a estudiosos e poetas que eu simplesmente não conheço, por isso se tornou difícil para me concentrar na leitura.

ensaios radioativos Ensaios Radioativos, de Márcio AndréNa segunda parte, “Estou no Google, logo existo”, Márcio-André aborda a tecnologia. Aqui ele fala da magnitude que a internet atingiu, mudando costumes e simplificando as coisas, às vezes até demais. Vale ressaltar a opinião do poeta sobre os livros digitais, que ele vê com otimismo. A visão dele é bem peculiar: com os e-books, aumenta a pirataria, e consequentemente aumenta o número de leitores. Pois, finalmente, o livro seria acessível a todos (que tenham computador e internet). Discordo um pouco dessa visão, pois acho que diminuir o preço dos livros ou torná-lo grátis não é um incentivo muito válido para a leitura, pois não muda nossa impressão sobre a literatura.

Em “Diálos Quânticos” são descritas entrevistas com Márcio-André. Geralmente, elas falam sobre sua obra e visão da poesia. Para quem já tem contato com os versos do poeta, essa parte é bem interessante, por mostrar a fundo sua opinião sobre o mundo da poesia e meio editorial. Mas, ainda aqui, a leitura é meio truncada, por interessar mesmo a uma parte pequena dos leitores: aqueles que o conhecem.

A leitura melhora na quarta e última parte, “Crônicas de uma viagem ao fim do mundo”, onde ele narra sua ida à Chernobyl desde sua estadia em Coimbra, Portugal, passando ainda por Londres e Paris. Esse relato é livre de conceitos e referências, porque se destina apenas ao que aconteceu durante a viagem, logo é mais fluida. Ele mostra de forma simples a diferença entre cada país, baseado no tratamento que recebeu das diferentes pessoas que conheceu. Mas sem dúvida, essa parte fica ainda mais interessante quando ele chega em Pripyat e vivencia todo aquele abandono. Seu relato até deu vontade de visitar Chernobyl.

Ensaios Radioativos é um livro destinado, sem dúvida, para quem já tem um bom contato com a obra de Márcio-André. Se você espera uma diversão, algo descontraído, certamente não irá gostar do livro. Mas se a poesia é o que interessa e você está atrás de boas reflexões sobre o assunto, é um livro que vai valer a pena ler.

Sobre o autor

Catarinense que estuda Jornalismo no Rio Grande do Sul, ama ler e se mete a resenhar qualquer livro que cai na sua frente.

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