Com mais de 100 milhões de metros de tecido, duas unidades vendidas por segundo, mais de 80 profissões e um dos rostos mais conhecidos do mundo, a boneca Barbie celebra seus 50 anos provando que ícones fashion são passageiros. Mas nem todos.
Barbara Millicent Roberts nasceu em Willows, no estado americano de Winsconsin, e ingressou na carreira de modelo logo após o término do colegial na Willows High School. Foi na gravação de um comercial que ela conheceu o namorado Ken, que junto com os amigos Midge e Allan, formou a trupe que se envolvia em aventuras cômicas e misteriosas nos hoje valiosos livros da Random House Books. Mas esses livros que deram vida à moça já eram uma resposta ao fenômeno.
Lançada para uma indústria descrente como uma proposta revolucionária de boneca, adulta e curvilínea (em oposição às bonecas bebês), na Toy Fair de Nova York do dia 09 de março de 1959, Barbie nasceu para se tornar um mito.
Com um simples maiô listrado em preto e branco, sobrancelhas arqueadas e um rabo-de-cavalo, a boneca adulta, inspirada em estrelas de cinema, não fez sucesso entre os comerciantes. Vendida a US$ 3,00, com roupinhas em separado que custavam entre US$ 1,00 e US$ 5,00, poucas unidades foram encomendadas. Mas as crianças adoraram a novidade e logo a primeira série se esgotou. Levou três anos para a fábrica de brinquedos Mattel conseguir atender a demanda, dando os primeiros passos para se tornar o império que é hoje. Foi a pedido das crianças, que clamavam por saber um pouco mais sobre a vida da moça, que os livros citados foram lançados, iniciando uma infinita coleção de produtos relacionados, que hoje vai de roupas à eletrodomésticos!
O COMEÇO
O casal Ruth e Elliot Handler fundou a Mattel Creations em 1945. Quatorze anos depois, ao ver a filha Barbara brincando com bonecas de papel, Ruth percebeu a importância do role-playing para as crianças, e identificou o nicho para uma boneca adulta, que permitisse às meninas se imaginarem no futuro.
Com roupas extremamente detalhadas, inspiradas no que havia de mais luxuoso na alta-costura francesa, Barbie veio ao mundo em sua primeira e fundamental profissão: modelo.
Às portas dos anos 60, a boneca já nasceu com sua filosofia máxima de que todos podem ser o que quiserem, sem limites para sonhos, e mesmo fazendo compras e desfilando trajes de gala, ela podia ser uma enfermeira, uma aeromoça, ou mesmo uma astronauta!
UM PAINEL DA MODA
Sendo o estandarte do conceito de fashion doll, Barbie acabou por documentar a evolução do vestuário no século XX, e conforme sua fama se expandiu, esse reflexo deixou de ser puramente temporal para ser cultural, quando outras nações abraçaram a bonequinha.
Com seus amigos e parentes, a linha das profissões, uma série de fantasias para teatro e a primeira linha de trajes típicos, a boneca cobriu de forma rápida os períodos passados e culturas estrangeiras, enquanto documentava botão por botão as novas tendências da sociedade ocidental.
Nos anos 60, primeiro mudou de penteado, para depois mudar de corpo e se tornar articulada. Acompanhando a moda jovem, a invasão britânica trazida pelos Beatles e as transformações políticas, vimos Barbie encarnar a modelo Twiggy, ter sua primeira amiga negra, falar (através de um minúsculo mecanismo de corda feito engenhosamente para caber em seu tronco), e se vestir com plásticos, pelúcias e cores vibrantes, até virar hippie e receber os anos 70 com cabelos longos, lisos e um corpo bronzeado
Seu pequeno mundo já contava com casas, carros, aviões, barcos e uma infinidade de acessórios minúsculos como frutas, panelas e talheres.
Foi em 1977 que seu novo rosto sorriu pela primeira vez. Era lançada a Superstar Barbie, inspirada em estrelas como Farrah Fawcett e Cheryl Ladd, do seriado “As Panteras”. Barbie já tinha sorrido um pouco antes na década, mas usando “emprestado” o molde da amiga Stacey. Com a Superstar Barbie, ela tinha um molde próprio, que atravessou as duas décadas seguintes, tornando-se seu rosto mais famoso.
Os excessos dos anos 80 trouxeram a primeira Barbie negra, e um mundo exageradamente rosa, com muito glitter e glamour, que acabou se tornando senso comum com relação à boneca, embora tenha efetivamente representado pouco tempo em sua trajetória.
No caso do Brasil, isso se explica por que a boneca chegou aqui em 1982, licenciada pela fábrica de brinquedos Estrela. Como é a primeira impressão que fica, para nós ela será sempre a loira de sorriso largo e vestido rosa, acompanhada do Bob, que não era ninguém menos que seu eterno namorado Ken, numa “liberdade poética” que confunde as pessoas até hoje (pois é, pessoal, o Bob não existe!).
Com a MTV, Barbie adotou o visual de Madonna para sua primeira banda de rock, e entrou os anos 90 na onda do rap e preocupada com questões ecológicas.
Alvo de críticas, ícone pop, frequentemente a “celebridade” se envolvia em escândalos, geralmente criados por pais conservadores que implicavam com uma tatuagem ou um Ken usando brinco.
A essa altura, a linha colecionável, direcionada ao público adulto, já tinha apresentado um novo rosto e Barbie desfilava nomes como Dior e Calvin Klein.
Nos anos 2000, ela passou por outra plástica, com um novo rosto sorridente e um corpo mais humano, com busto menor, quadris mais largos e pela primeira vez, umbigo.
Nessa década sofreu seu único baque, quando as concorrentes “Bratz” lhe tiraram a posição de fashion doll mais vendida por um breve momento, iniciando uma disputa judicial que se estende até hoje, com a Mattel se dizendo proprietária das concorrentes, criadas por um ex-funcionário que ainda trabalhava lá quando desenvolveu o projeto.
BARBIE PARA TODOS
Embora bonecas sejam comumente brinquedos de menina, Barbie não surgiu exatamente com essa proposta. Com o advento do Ken em 1961, com suas roupinhas esportivas, seu carro e a namorada, não era inconcebível que meninos se interessassem pelos brinquedos. Isso mudou rapidamente, e mesmo o Ken passou a ser uma exclusividade das garotas, até que nos anos 90 a Mattel iniciou a linha colecionável.
Com bonecas vestidas por estilistas, representando celebridades e outros ícones pop, Barbie abriu seu mundo para todos.
Não é impossível imaginar um homem bruto colecionando Barbies, quando temos uma linha inteira de bonecos do Elvis, bonecos com roupas de couro sobre motos Harley-Davidson, ou personagens de filmes como “O Senhor dos Anéis”, “Speed Racer”, “ Arquivo-X” e heróis como Superman e a Mulher-Maravilha.
Acrescente a quase interminável série de trajes típicos, representando mais de 50 nações, e bonecas históricas como a da rainha Maria Antonieta, e é difícil não encontrar aquela Barbie que parecerá “feita para você”.
MEIO SÉCULO
Então, em meio à crise, Barbie chegou aos 50. Enquanto as vendas diminuem nos EUA, crescem no mundo, e as comemorações incluíram a abertura de uma mega-loja de seis andares em Xangai, quase que exclusivamente destinada a adultos. Um desfile comemorativo na semana de moda de Nova York, um andar inteiro para venda de produtos na tradicional Bloomingdale’s e uma festa recheada de celebridades numa mansão especialmente decorada na praia de Malibu, com a apresentação de um exclusivo VW New Beetle comemorativo (esse foi o modelo de carro da Barbie mais vendido em sua história). Outro carro foi lançado pela Fiat, e a linha de bonecas colecionáveis celebrou reeditando algumas das bonecas mais icônicas dessa saga rosa.
Surpreendentemente, a comemoração mais impressionante é a do Brasil. Com a abertura do “Museu Encantado da Barbie” no Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, o público brasileiro pode viajar por essa história através de 54o exemplares da coleção do psicólogo Carlos Keffer, divididos em salas temáticas que contam a história da boneca, num espaço pensado exclusivamente para ela. É possível, inclusive, ver o primeiro exemplar da boneca. Aquele mesmo que começou essa história toda, em março de 1959.
A exposição fica aberta ao público até o dia 31 de julho, pouco mais de uma semana após a Convenção Nacional de Colecionadores, que se realizará nos dias 18 e 19 desse mês, no SENAC-Moda de São Paulo.
Seja como fada, presidente ou rainha, não se pode negar o poder e a graça desse simples brinquedo, que entre sorrisos e purpurina, conta um pouco da nossa história enquanto constrói a sua, como ícone e musa fashion. Seja tudo que você quer!*
*Atual slogan da marca, em oposição ao “Tudo que você quer ser” usado no Brasil nos anos 80.
FATOS CURIOSOS:
Ao contrário do que muitos pensam, Barbie tem muitos rostos. Há moldes orientais, negros (com distinção de três raças afro-americanas), hispânicos, indígenas e caucasianos. Uns sorriem, outros nem tanto. Alguns tem lábios mais carnudos, outros são mais arredondados, e a boneca tem sete tons de “pele” diferentes.- Barbie tem 4 irmãs: Skipper (1964), Stacie (1992), Kelly (1995) e Krissy (1999).
- Barbie tem sua própria cor: Pink Pantone PMS 219.
- Barbie, Ken e Skipper foram batizados em homenagem aos filhos do casal Handler, Barbara, Kenneth e Skipper.
- Em 1959, 351.000 Barbies foram vendidas. O preço dela era US$ 3,00, mas hoje a primeira Barbie, em boas condições, pode chegar a US$ 10.000,00.
- Barbie já foi vestida por designers como Christian Dior, Givenchy, Carolina Herrera, Badgley-Mischka, Juicy Couture, Vera Wang, Bob Mackie e Giorgio Armani.
- Ela tem mais de um bilhão de pares de sapatos.
- Barbie teve mais de 50 animais de estimação, incluindo uma Zebra.
- Colocadas uma acima da outra, todas as bonecas Barbies já vendidas fariam uma linha que daria sete vezes a volta na terra.
- Em 1997, foi lançada a amiga Becky, a primeira boneca da linha Barbie a vir numa cadeira de rodas.
- Em 1992, a Mattel recebeu autorização das forças armadas americanas para produzir bonecas Barbie com os uniformes de cada corporação.
- A Barbie mais vendida da história é a Totally Hair Barbie (aqui lançada como MaxiHair), com cabelos até os pés.
Fabrício Longo tem uma coleção de 300 bonecas Barbie e uma tatuagem com o logotipo dela. Participou da montagem do museu dos 50 anos e divide seu tempo entre colecionar outros brinquedos interessantes, ler histórias da Mulher-Maravilha e caçar empregos para sustentar esses vícios.





















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